Mulher não tem jeito: o primeiro homem que aparece, vai logo transformando em princípe encantado, certa de que o sujeito vai amá-la, protegê-la e respeitá-la até que a morte os separe. Faltou alguma coisa?
Não, acho que as palavras são
estas, ditas (ou susurradas) no altar, no cartório, ou no escuro do
quarto, tanto faz. Depois de um tempo (não importa quanto), a união
precipitada (e mal interpretada) desaba diante de uma toalha
molhada em cima da cama. Se foi ele quem deixou o objeto fora do
lugar (e sempre é), aproveita para dar o fora. E você fica sozinha
(quantas vezes com esta?), remoendo o que foi que deu errado, de
novo.
Mas, passada a tempestade, a
fase do chá de camomila, do ombro dos amigos e dos lenços de papel,
você respira aliviada. Percebe que deixou de ser a ex de alguém e
começa a desfrutar as vantagens de voltar a ser solteira. Pode pôr
o pé na estrada, arrumar novos amigos (os antigos e comuns costumam
ser péssimos conselheiros), namorar, fazer tudo o que queria e
sempre pôde antes de se meter em mais uma barca
furada.
No início, a cama, sem ele, parecia imensa, vazia? Agora, como é prazeiroso poder se esparramar sobre ela, que é toda sua novamente, não é? E, convenhamos: trocar os vídeos do Jean-Claude Van Damme (apesar de ele ser um gato) por Tomates Verdes Fritos é delicioso.
Mas aí o carro quebra. Ou você ouve da amiga: “Ih, está faltando homem no mercado”. (E está mesmo, principalmente do seu tipo preferido, o sapo).
Pausa para refrear o pânico:
“Será que vou dar conta da situação”, começa a se
perguntar. Claro que vai. E por dois bons motivos: primeiro, você
já passou pelo mais difícil (que foi se livrar do “mala sem
alça”); segundo, é só acompanhar meu
raciocínio.
Essa lorota de, no mercado, faltar Homem (atenção, revisor o h é maiúsculo, mesmo), de existirem mulheres a mais, não vão ser problemas para quem chegou até aqui, intacta, sem perder as esperanças. Ou vai?
Acalme-se! Saiba que em oito dos 27 estados brasileiros a população masculina é maior do que a feminina. Está certo que, em Goiás, existem 10% a mais de mulheres do que de homens. Porém, é a mesma diferença registrada no Rio de Janeiro e Distrito Federal.
Em São Paulo, o número cai para
5,1%. O Maranhão e Rio Grande do Norte registram índices ainda
menores: 4,3% e 3.2%, respectivamente. Portanto, estas estatísticas
não devem assustar uma mulher tão determinada a não ficar
sozinha.
Ficou mais animada? Tenho certeza que sim, apesar de temer que ainda não esteja preparada para fazer uma boa escolha. Mas, enfim, vamos continuar o raciocínio – e as boa novas: a maior parte desse excedente é composto de mulheres de terceira idade, o que não é o seu caso (ou é?).
Bem, felizmente (para muitas,
infelizmente) nós vivemos mais. Na faixa dos 80 anos, há cerca de
três mulheres para cada homem da mesma idade. E não estou tirando
esses números da cartola. Quem os afirma é a assistente social
Iwonka Blasi, do Paraná, autora do livro Os Grandes Mitos da
Feminilidade (Editora Rosa dos Tempos). Até os 50 anos de idade,
segundo ela, existe um homem para cada mulher. Viu como o desespero
não era necessário?
Mas será que toda mulher precisa de um novo marido? A advogada uruguai Fany Puyesk, autora do Manual para Divorciadas (L&P Editores), afirma que sim. “Existem divorciadas que procuram loucamente por um homem livre. Um homem livre será certamente um novo marido, mais cedo ou mais tarde”, escreveu ela.
Fany acha que as mulheres, ao
procurar “desesperadamente” por um homem disponível, se
esquecem da vida que tinham antes com o ex. “Do que se
privam, ao não ter maridos? Se privam das brigas, dos roncos, da
família dele, de que lhes perguntem onde estão seus óculos. Se
privam de serem livres”, responde. Ufa, seja bem-vinda, Fany.
Alguém, em seu juízo perfeito resolveu colocar no papel o
óbvio.
Aprenda, com nossa nova amiga, uma lição para o resto de sua vida: aguente a ansiedade e a aflição da solidão para não jogar a rede no primeiro que aparecer – ou a toalha cedo demais. Eu sei que teoria e prática, principalmente nesse assunto, caminham longe uma da outra. E que depois da separação, a única coisa que a gente consegue imaginar é o surgimento de um salvador, de alguém que possa livrar-nos daquela dor insuportável dos primeiros tempos.
Quando essa pessoa aparece o que
é que a infeliz faz: gruda nele 24 horas ao dia. Resultado: ele
simplesmente desaparece. Entendeu o recado? Arrisque-se a sair com
os amigos despreocupadamente, a se divertir sem maiores
expectativas ou correndo o risco de ficar vesga, tentando comer com
os olhos todo marmanjo que cruzar o seu
caminho.
Outro erro comum das descasadas
é usar o padrão de vida – que depois da separação costuma
despencar em queda livre – como desculpa para encontrar
alguém de imediato. Esqueça esse argumento, passe a controlar o
orçamento domésticpo na ponta do lápis (afinal, você aprendeu
matemática na esola para quê?) e busque opções no campo
profissional. Tomar essas atitudes (entre outras) é fundamental na
vida de solteira. Muito melhor do que ficar chorando sobre o leite
derramado (que horror!) ou ficar se fazendo de vítima
impotente.
As pequenas situações práticas a
asustam? Você morre de medo de que algo aconteça com o carro ou que
surja algum problema no banco? Não acredito que não seja capaz de
lembrar-se de que existem mecânicos e gerentes justamente para
resolver estes pequenos dramas domésticos. Mas não aposte mais do
que o necessário, por favor.
Sei que você está curiosa para
saber por que falo com tanta autoridade sobre o tema. É que
já passei por situações parecidas e, como diz o ditado, gato
escaldado tem medo de água fria (ou quente, quando a gente,
descuidadamente, queima a perna na banheira do motel, tão
embevecida com o sujeito ao nosso lado).
Quando os maridos se foram, o carro não quebrou, aprendi a ir ao banco e manipular aquela maquininha dos deuses (o caixa-eletrônico, sua tonta) e, se o encanamento do apartamento entupia, fazia uma consulta aos vizinhos do prédio. Agora, se tudo falhar, sempre se pode recorrer a um amigo. Ou ao zelador. Eles são ótimos em ajudar uma mulher sozinha a resolver probleminhas domésticos. E só!
* Matéria especial, publicada no caderno DMRevista, do jornal Diário da Manhã, Goiânia, Goiás, em 1999.


