Emfim, só!  escrito em sábado 12 julho 2008 06:53

Mulher não tem jeito: o primeiro homem que aparece, vai logo transformando em princípe encantado, certa de que o sujeito vai amá-la, protegê-la e respeitá-la até que a morte os separe. Faltou alguma coisa?

Não, acho que as palavras são estas, ditas (ou susurradas) no altar, no cartório, ou no escuro do quarto, tanto faz. Depois de um tempo (não importa quanto), a união precipitada (e mal interpretada) desaba diante de uma toalha molhada em cima da cama. Se foi ele quem deixou o objeto fora do lugar (e sempre é), aproveita para dar o fora. E você fica sozinha (quantas vezes com esta?), remoendo o que foi que deu errado, de novo.

Mas, passada a tempestade, a fase do chá de camomila, do ombro dos amigos e dos lenços de papel, você respira aliviada. Percebe que deixou de ser a ex de alguém e começa a desfrutar as vantagens de voltar a ser solteira. Pode pôr o pé na estrada, arrumar novos amigos (os antigos e comuns costumam ser péssimos conselheiros), namorar, fazer tudo o que queria e sempre pôde antes de se meter em mais uma barca furada.

No início, a cama, sem ele, parecia imensa, vazia? Agora, como é prazeiroso poder se esparramar sobre ela, que é toda sua novamente, não é? E, convenhamos: trocar os vídeos do Jean-Calude Van Damme (apesar de ele ser um gato) por Tomates Verdes Fritos é delicioso.

Mas aí o carro quebra. Ou você ouve da amiga: “Ih, está faltando homem no mercado”. (E está mesmo, principalmente do seu tipo preferido, o sapo).

Pausa para refrear o pânico: “Será que vou dar conta da situação”, começa a se perguntar. Claro que vai. E por dois bons motivos: primeiro, você já passou pelo mais difícil (que foi se livrar do “mala sem alça”); segundo, é só acompanhar meu raciocínio.

Essa lorota de, no mercado, faltar Homem (atenção, revisor o h é maiúsculo, mesmo), de existirem mulheres a mais, não vão ser problemas para quem chegou até aqui, intacta, sem perder as esperanças. Ou vai?

Acalme-se! Saiba que em oito dos 27 estados brasileiros a população masculina é maior do que a feminina. Está certo que, em Goiás, existem 10% a mais de mulheres do que de homens. Porém, é a mesma diferença registrada no Rio de Janeiro e Distrito Federal.

Em São Paulo, o número cai para 5,1%. O Maranhão e Rio Grande do Norte registram índices ainda menores: 4,3% e 3.2%, respectivamente. Portanto, estas estatísticas não devem assustar uma mulher tão determinada a não ficar sozinha.

Ficou mais animada? Tenho certeza que sim, apesar de temer que ainda não esteja preparada para fazer uma boa escolha. Mas, enfim, vamos continuar o raciocínio – e as boa novas: a maior parte desse excedente é composto de mulheres de terceira idade, o que não é o seu caso (ou é?).

Bem, felizmente (para muitas, infelizmente) nós vivemos mais. Na faixa dos 80 anos, há cerca de três mulheres para cada homem da mesma idade. E não estou tirando esses números da cartola. Quem os afirma é a assistente social Iwonka Blasi, do Paraná, autora do livro Os Grandes Mitos da Feminilidade (Editora Rosa dos Tempos). Até os 50 anos de idade, segundo ela, existe um homem para cada mulher. Viu como o desespero não era necessário?

Mas será que toda mulher precisa de um novo marido? A advogada uruguai Fany Puyesk, autora do Manual para Divorciadas (L&P Editores), afirma que sim. “Existem divorciadas que procuram loucamente por um homem livre. Um homem livre será certamente um novo marido, mais cedo ou mais tarde”, escreveu ela.

Fany acha que as mulheres, ao procurar “desesperadamente” por um homem disponível, se esquecem da vida que tinham antes com o ex. “Do que se privam, ao não ter maridos? Se privam das brigas, dos roncos, da família dele, de que lhes perguntem onde estão seus óculos. Se privam de serem livres”, responde. Ufa, seja bem-vinda, Fany. Alguém, em seu juízo perfeito resolveu colocar no papel o óbvio.

Aprenda, com nossa nova amiga, uma lição para o resto de sua vida: aguente a ansiedade e a aflição da solidão para não jogar a rede no primeiro que aparecer – ou a toalha cedo demais. Eu sei que teoria e prática, principalmente nesse assunto, caminham longe uma da outra. E que depois da separação, a única coisa que a gente consegue imaginar é o surgimento de um salvador, de alguém que possa livrar-nos daquela dor insuportável dos primeiros tempos.

Quando essa pessoa aparece o que é que a infeliz faz: gruda nele 24 horas ao dia. Resultado: ele simplesmente desaparece. Entendeu o recado? Arrisque-se a sair com os amigos despreocupadamente, a se divertir sem maiores expectativas ou correndo o risco de ficar vesga, tentando comer com os olhos todo marmanjo que cruzar o seu caminho.

Outro erro comum das descasadas é usar o padrão de vida – que depois da separação costuma despencar em queda livre – como desculpa para encontrar alguém de imediato. Esqueça esse argumento, passe a controlar o orçamento domésticpo na ponta do lápis (afinal, você aprendeu matemática na esola para quê?) e busque opções no campo profissional. Tomar essas atitudes (entre outras) é fundamental na vida de solteira. Muito melhor do que ficar chorando sobre o leite derramado (que horror!) ou ficar se fazendo de vítima impotente.

As pequenas situações práticas a asustam? Você morre de medo de que algo aconteça com o carro ou que surja algum problema no banco? Não acredito que não seja capaz de lembrar-se de que existem mecânicos e gerentes justamente para resolver estes pequenos dramas domésticos. Mas não aposte mais do que o necessário, por favor.

Sei que você está curiosa para saber  por que falo com tanta autoridade sobre o tema. É que já passei por situações parecidas e, como diz o ditado, gato escaldado tem medo de água fria (ou quente, quando a gente, descuidadamente, queima a perna na banheira do motel, tão embevecida com o sujeito ao nosso lado).

Quando os maridos se foram, o carro não quebrou, aprendi a ir ao banco e manipular aquela maquininha dos deuses (o caixa-eletrônico, sua tonta) e, se o encanamento do apartamento entupia, fazia uma consulta aos vizinhos do prédio. Agora, se tudo falhar, sempre se pode recorrer a um amigo. Ou ao zelador. Eles são ótimos em ajudar uma mulher sozinha a resolver probleminhas domésticos. E só!

* Matéria especial, publicada no caderno DMRevista, do jornal Diário da Manhã, Goiânia, Goiás, em 1999.

 



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Alice das ruas!  escrito em sábado 12 julho 2008 06:53

Ele tirou sua calcinha, que ficou perdida no meio da rua, num canto.

Sua mão, nervosa, procurava alguns reais num montinho amassado que ele havia enfiado no bolso. Será?

A boca da menina, que ele mal conhecia, era bem vermelha e fina, mas os gritos eram fortes, potentes.

Entre suas mãos que encontravam moedas, guimbas de cigarro, pernas e bunda, estava uma aliança de ouro legítimo herdada do pai. Mas onde estava o dinheiro? No bolso da calça do lado oposto onde ele guarda seu pau. Ele tinha certeza. Cadê?

_ Na boca, não!
_ Então vira.

E ele se esqueceu do dinheiro. E ele repetia.
_ Eu me esqueci do dinheiro! Eu me esqueci do dinheiro!

E seu dedo. Dedo. E mais dedo. E mais dedo.

A boca fina da menina era grossa, sua cabeça pendia, a cabeça do pau dele pensava lentamente, sonâmbulo. A cabeça dele olhava também aqueles peitos que também olhavam para ele através dos rasgos do vestido.
_  Eu me esqueci do dinheiro! Eu me esqueci do din...

E sua boca tomou o lugar de seu pau. E sua boca tomou inteiramente o lugar de seu pau. E sua boca falou baixinho muitas palavras para aquela boca, sem língua.

Aquela boca escutava, escutava, ouvia.

Os olhos pretos da menina olhavam. Viam tudo.

Os pêlos, os dentes, os pêlos, a língua outra vez e agora da novo.

Ela se lembrou de um filme. Ela esqueceu.

Um barulho de moeda no chão e ele levanta aflito. Pega moeda por moeda. E as notas?

Ele olha um rasgo em sua calça. Ele se lembra que rasgou sua calça.
_ Alice! Seu nome é Alice. Alice das ruas. Linda, linda! Costura minha calça, por favor?

No apartamento dela, sentado no sofá, ele olha aquela agulha que fura o tecido duro da calça.

As mãos nervosas – dele, olhando as mãos pequenas que costuram um ponto a mais, mais um.

Um cheiro de café preto que vem da xícara que ele tenta segurar, nervoso como eu já disse, acalma aquele ambiente.

Calça pronta, calça vestida, cinto e tudo. E ele tira o cinto e desabotoa a braguilha e volta para ela.

E eles conversam, eu não sei ao certo o quê.

Ela fala mais do que ele.

Ela volta ao seu ouvido, agora a sua boca, ao ouvido de novo, ao outro ouvido.

Agora ela ri, ri muito. Olha. Ri sem parar.

Ele olha. Ela fala, fala, fala...

Ele olha novamente. Ela sorri. Fica séria.

Fica muito séria.

Ele beija seu queixo. Ela beija seu queixo.

Ele ri. Ela olha. Ele olha.

Na rua passando alguém vê a calcinha no chão. A calcinha se junta às folhas e corre apressada pela calçada. Debaixo de um poste de luz fosforescente, agora mais branca que nunca, pára presa enganchada por um pequeno parafuso. De longe se pode ver aquela calcinha iluminada naquela noite tão escura. Um altar talvez.

Da janela, de pé, apoiada no parapeito e no pau duro que a segura pelo meio de suas pernas, ela vê um homem passar distraído ao lado de sua calcinha.

Agora um cachorro e depois um gato.

E agora ela vê a mão do homem, a mão e a aliança que seguram firme na janela.

São duas mãos e um corpo que ela não vê.

Ele vê tudo. A janela, a rua, o homem que passou distraído, o cachorro, a calcinha.

As costas dela, parte da bunda, o cabelo todo. O seu pau. O seu pau de novo.

Ela cega, olha para frente, para os apartamentos, para o vento que bate frio em seu rosto.

Ele vê tudo. Ela cega.

Ele gosta de ver. Ela gosta de ser vista. Ela se mostra.

As mãos dele esquecem um prego mal colocado no parapeito.

Ela continua a mostrar. Ele continua a olhar.

A aliança se desprende de seu dedo e cai. Só a aliança, ainda no ar, pôde ver um casal se beijar no primeiro andar. Bate no chão, rola pela calçada, pára.

De uma outra janela do prédio em frente podemos ver os dois. Pouca luz. Alguns movimentos.

Uma ou duas pessoas? Uma. Não, acho que duas. Com certeza, duas.
Duas. Um cabelo comprido, outro curto.

Sumiram.

Nunca mais ninguém os viu.

O vento volta a soprar frio e empurrou a aliança para debaixo daquele poste.

Aquele ouro todo enrolou na brancura daquela calcinha.

A lua iluminou os dois como num altar, e ela disse sim.

 

 



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Sou mulher!  escrito em sábado 12 julho 2008 06:43

Sou poetisa,
mulher criativa,
próspera por desejada.

Sou mulher imperfeita,
mas tenho luz própria
- o brilho de noites  estreladas.

Sou mulher que tem o poder de ligar um neon na aura
quando quer ser bela.

Sou mulher que traz o doce no olho,
a dissimulação sem leque,
a liquefação de fêmea
sob a ternura de menina.

Sou mulher sem verniz,
mas que ofusca entre as próprias aspas.

Sou mulher incondicional,
que não põe seu homem à deriva por chantagem,
nem procura negar-lhe por essência.

Sou mulher a quem falta o ar
sem o contentamento de ser amada

Sou mulher que se deixa carregar pela cintura,
cheia de dignidade,
praia adentro,
mar afora.

Sou mulher,
magneto sutil,
ligado ao interesse nítido do corpo,
olhando de outro mundo,
mas em posição perfeita
no momento de trocar o controle dos dínamos,
sem perder o tom de prece da cantoria.

Sou mulher que deseja a felicidade das estrelas
e assim não nega combustível ao seu foguete.

Sou mulher que se atira no carro,
no colo, certa como um entardecer.

Sou mulher que não recua diante do seu feminino
nem do que é sagrado ao seu homem.

Sou mulher que gosta de estoques de excitação,
que abre fendas no tempo para a saciedade.

Sou mulher-fada,
sem pressa em usar o poder do encantamento,
sorridente de magia e predisposição.

Sou mulher que expõe desejos,
que repete os versos idílicos de seu homem,
espantada por não tê-los escritos,
sem esconder que estes foram certeiros.

Sou mulher adulta,
não tardia:
aquela que não se mede pelo virar do calendário
nem pela conta dos dias.

Sou, por isso,
e por tudo isso,
aquela cujos olhos brilham ao saber que a potência,
a criatividade e a paixão de seu homem apontam para si.

Satisfeita em minhas vontades,
sirvo-lhe poemas matinais,
se é poesia que ele quer,
para voltar do cosmo,
após o gozo vencido.

E café na cama,
comidas afrodisíacas,
carinho construído como paisagem na manhã dourada.

Sou mulher,
nua,
lua apaixonada!

Mulher que ferve ao sentir-se desejada
e despeja o caldo do prazer sobre seu poeta
com toda a luz de estar presente

Mulher que vai despida ao jardim
buscar uma flor para as carícias do seu homem.

Mulher que prepara o quarto com surpresas:
olhares no silêncio,
lágrimas de paixão,
espasmos e arrepios,
lenços de seda depois de um banho de estrelas.

Mulher que serve ao seu homem,
como amante,
sem pressa,
para que ele saiba regular nas pupilas
o despertar ou o fulminar de tua ereção.

Caso queira,
volto a ser criança
o tempo suficiente para mostrar-lhe
como se brinca com as próprias luzes,
iluminando o quarto ao seu lado.

Ah, como acredito em meu homem,
pois este troca gestos e acaricia com o olhar,
sinaliza desejos em palavras.

Sinaliza o amor como sendo troca,
a única coisa que vale qualquer preço:
vale trocar de mundo,
de pulmão,
de medo,
de profissão,
de paradigma.

Tristes são os amantes
que não tangem o sagrado num ato de amor.

A poesia que une nossos corações é vínculo:
não precisa anel de compromisso
nem subir, vestida de noiva, escadarias de catedrais.

Se procura por uma mulher com tesão em si própria
e disposta a trocar fluidos – do genital ao metafísico -,
feliz por ter um amor,
sábia a ponto de ensinar com a pele que,
ao largo das sócio biologias
imperativo mesmo é unir duas almas
em estado de troca,
aqui estou.

Aqui estou para unir-me a ele,
e doar-me,
muito além das subdivisões,
sob suas mãos incansáveis
para expressar sonhos táteis.

Sejamos, pois,
poesia e leveza,
que permitem a eterna juventude aos que amam,
pelo menos enquanto amam.

Beijo-lhe os olhos sem medo,
sem arrependimento,
pois este é arte do depois.

Beijo-lhe,
então,
com coragem!

Não dá pra ser feliz
e ter medo de amar ao mesmo tempo.

Amor é presente!

                          ..................................

                             Paraty (RJ), 2 de julho de 2008

 

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Do avesso e dos extremos  escrito em sábado 12 julho 2008 06:43

                    Havia algo dentro de mim que te pertencia,

                                  Mas não fizestes conta.

                              Hoje, algo se desfez em mim.

                                    Tu nem percebestes,

                             Porque não soubestes tomar para ti.

 

                                         Com o tempo,

                     O pouco que ficou vai se perder na indiferença.

                       A mesma de quando te vi e não me importei.

                                           Se eu sofri?

                            Meu coração é um poço sem fundo.

 

                                               Minha alma?

                                             Ah, minha alma...

       Esta se perdeu no vazio do algo dentro de mim que te pertencia.

                      E que, na tua indiferença, não fizestes conta.

 

        Tantos destinos se cruzam quanto tantos caminhos se separam.

                  Meu coração se perdeu entre esses dois momentos.

                                               E eu sofri!

 

                              Os que me amaram pelo que eu sou,

                                            Pouco me sabem.

                                    Os que amei pelo que pareço,

                             Guardam muito mais do que talvez eu seja.

 

                                           Sou o que sou:

                           Gemo, grito e me contorço quando amo.

                                               E choro!

              Quando despida por dentro e por fora das alegrias do amor,

                                  Transformo-me em sombra,

                               A partir do avesso e dos extremos.

 

                              Quando o gesto concreto do intento

                                Está na sombra dos que se fecham,

                               Revelando o medo de dar o que se pede,

                        Quando o que se pede é meia parte dada por si só.

 

                                          Todo amor é metade.

                                        O amor que me sustenta,

                                    Tenta a parte que há muito parte,

                                           A metade que me habita.

 

           E como metade sombria de um coração afundando no peito,

                      Tu és luz arranhando os abismos do meu ser.

                   Abismos tão expostos e prontos para serem servidos.

 

                                Mas viver é fuga constante.

                  E não sei por que insisto onde não mais me vejo.

                     Afinal, minhas paixões são ventos de agosto.

                                    Embora entrem em mim

                      Como as raízes das plantas entram na terra.

 

                               Todo amor é ladrão de si mesmo.

                 Mas pode ser ausência que nos habita por antecipação.

                    Uma ausência que tem mais corpo que muito corpo,

                                   E insiste calar o que me arde,

                       Pois abortou o que sequer havia tomado corpo.

 

                               Morte para o que não foi vida.

                                Covardes não usam espelhos.

                                         Flores do cerrado

                                        Para o meu coração

                                          Serrado ao meio.

 

                                  Nada é o que agora me habita,

                                 Emoldurada pela solidão que sou.

                                       Viver é fuga constante.

                                  Desejava fugir para os teus braços,

                                Para a vida que me espera dentro deles.

 

                                   O amor desenha ensaios do medo.

                                          Agora te compreendo.

                                  E não te amo menos por causa disso.

 

......................................

 

* Obra aberta!

 

Paraty (RJ), 26 de junho de 2008

 

 

 

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Como ter um caso de amor, e de sexo, sem culpa  escrito em sábado 12 julho 2008 06:43

Mergulhar de cabeça numa relação rápida e inconseqüente

pode ser um ótimo ensaio para um compromisso estável

Foi um dos relacionamentos mais gostosos da minha vida e duraram exatas duas semanas. Durante quatorze dias, conversamos sobre todos os livros que lemos, fomos ao cinema e ao teatro, curtimos deliciosas manhãs na praia, trocamos beijos sem fim e fizemos amor quase todo o tempo. Sabíamos que aqueles momentos já nasceram com os dias contados. Eu estava de partida para Portugal, onde passaria seis meses trabalhando como correspondente. Ou seja, não fizemos nada de errado para que o nosso envolvimento chegasse ao fim -- simplesmente não tínhamos como levá-lo adiante. Também não estávamos apaixonados. Foi apenas um caso.

Ah! As alegrias de se deixar envolver pelo prazer do sexo -- ficar junto sem se preocupar “com o futuro”. Esses breves encontros são plenos de tesão e aventura. Não conhecem o nervosismo do famoso jantar com a família dele  e muito menos a angústia de imaginar se a relação vai chegar a algum lugar ou não. Casos não têm passado ou futuro; são movidos pelo presente. São breves por definição.

Quer um exemplo mais que perfeito? Minha amiga Rita tem encontro marcado, todo final de ano, com Alex, um morenaço de fulminantes olhos azuis. “Passamos o reveillon juntos há quatro anos. Ele mora em Recife, mas vamos para a casa das nossas famílias, em Goiás Velho, nessa época.” Quando perguntei se o romance tinha alguma chance de sobreviver na vida real, Rita respondeu: “Jamais. Gostamos do que conhecemos um do outro, mas temos medo dos lados ocultos da personalidade de cada um. Para começar, acho que ele é eleitor de políticos que não suporto.” Ela tem razão. Eles se enquadram em pelo menos dois daqueles quatro motivos que, na minha opinião, fazem com que determinados casais estejam “fadados a uma vida breve”.

1 - Incompatibilidade geográfica. Você mora no Sul; ele, no Nordeste. Mas descobrem, em uma viagem de férias, uma incrível afinidade mental e sexual. Ou seja, encontram o material perfeito para viver um caso (já pensaram sobre a brevidade de tempo contida na palavra “férias”?).

2 - Valores muito diferentes. Você sabe que existe na personalidade dele “defeitos” que podem ser ignorados por algum tempo, mas sente que não conseguiria conviver com eles para sempre. (Por exemplo: o homem é ateu declarado; você, católica fervorosa).

3 - Falta de sincronia no planejamento de vida. Você guarda todas as suas economias para comprar um apartamento; ele, além de não ter nada na poupança, investe o 13º em viagens (Nada contra, que fique registrado aqui).

4 - A ridícula diferença de idade. A menos que você tenha uma forte inclinação por homens muito mais velhos ou muito mais novos, grandes diferenças de idade podem acabar com qualquer possibilidade de uma relação mais longa.

Puro tesão

Assim como a chocolate e outras coisas boas da vida, os relacionamentos rápidos, movidos por puro tesão, caíram em desgraça nos últimos anos. É claro que a Aids contribuiu muito para isso. Mas ela não está sozinha (as camisinhas, quando usadas corretamente, são perfeitas no combate à doença). As mulheres não andam suficientemente liberadas para lidar com as agradáveis situações que envolvem um romance fugaz.

Para algumas, essa experiência atrapalha os planos de encontrar um casamento feliz. “É perda de tempo sair por sair”, dizem. Discordo. Mesmo que sua meta final seja conquistar o amor de sua vida, sempre haverá espaço para se divertir com o sexo oposto. Encare esses relacionamentos como uma “pesquisa” sobre os hábitos, gostos e caprichos masculinos. E vai se surpreender como um homem consegue ser divertido se você não passar o tempo todo tentando adivinhar como seria viver com ele o resto da vida. E quando encontrar aquele que a levará ao altar, certamente o deixará encantado com a sua natureza independente e o seu conhecimento sobre a alma masculina.

Porém, um aviso: nem todos os homens que não têm as qualidades que você procura em um marido são recomendáveis como free lance. Alguns são sempre perigosos: alcoólatras, viciados em droga e perdedores (aquele tipo que só abre a boca para dizer o quanto a vida é injusta com ele). E se você pertence à categoria das carentes incuráveis, ter um caso pode não ser uma boa idéia. “Costumo me apaixonar depois do primeiro beijo”, disse uma amiga. “E morro de dor-de-cotovelo se não sou correspondida.” Caso se enquadre nesse rol, cuidado. Se um dos lados não encarar a experiência como algo passageiro, pode ter certeza de que vai sofrer.

Levitação emocional

É preciso ser flexível para encarar os riscos que fazem parte dessa aventura e manter um clima de tranqüilidade. Mas, acredite, vale a pena. É a sua chance de colocar em prática todos aqueles truques de “levitação” emocional -- como, por exemplo, superar a ansiedade da espera de um telefonema dele ou se recusar a perder tempo imaginando se ele gosta de você -- que ajudam bastante na hora de enfrentar as expectativas da primeira fase de uma relação “normal”.

Quando não se tem muito a perder, fica mais fácil encarar os sentimentos e as expectativas de frente. Portanto, deixe claro que você gosta dele, mas que tudo não passa de uma brincadeirinha. Nada de “eu te amo” ou “não existe ninguém como você”.

Agora que já sabe o que não deve dizer, como vai explicar que, apesar de gostar dele, não quer pensar no futuro? Meu discurso favorito é: “Tem sido ótimo, mas é bom que não seja para sempre”. É claro que você não vai tocar nesse assunto na cama. O ideal seria em um jantar, logo após ele emitir uma opinião completamente diferente da sua sobre temas como política ou ambição profissional. Isso, certamente, vai tirá-lo das nuvens e provar que ele está longe de ser seu príncipe encantado. Pode ser a oportunidade de que precisavam para fazer um brinde “à essas semanas em que estivemos juntos.”

Diversão e prazer

Outra grande vantagem desses romances fugazes: não nos obrigam a fingir interesse por coisas que não nos dizem respeito. Minha amiga Sonia, por exemplo, passou o fim de semana inteiro com um colega, comendo salgadinhos e assistindo futebol na tevê. “Nem penso em passar a vida fazendo isso. Mas naqueles dois dias foi muito divertido.”

O ponto essencial dessas relações é curtir. Faça o que der na sua cabeça: muito sexo, ostras no café da manhã, transar ou dar um amassos no elevador do seu prédio. Libere todas as suas fantasias. Faça o que sempre quis, mas que se sentia inibida de fazer com o potencial príncipe encantado. Isso não quer dizer que com ele suas noites seriam regidas por uma enervante monotonia. Significa apenas que, ao lado de um homem desconhecido, você vai se sentir mais livre para liberar suas “loucuras” -- afinal, não estará preocupada em ser reprovada no teste.

Esses relacionamentos já nascem com começo (quando os olhares se encontram), meio (quando todas as outras partes do corpo se encontram) e fim (foi bom, mas chegou a hora da despedida). O que não quer dizer que são imunes às expectativas. Alguns casos podem evoluir. Mas isso no geral acontece quando a gente mantém uma postura desinteressada. E olha que são eles que afirmam isso.

As quatro regras fundamentais

O fato é que, nesses relacionamentos ocasionais, você precisa deixar suas intenções bem claras tanto para ele quanto para si mesma. Portanto, observe bem essas quatro regras fundamentais:

1 - Não construa uma história -- Nada de tirar milhões de fotos, guardarem lembrancinhas e adquirir coisas em comum. Até a compra de uma cadeira pode significar comprometimento.

2 - Não dê presentes caros -- Relógio de ouro está fora de cogitação. Assim como qualquer coisa que demonstre que você está investindo nele.

3 - Não o apresente para ninguém -- Você não precisa conhecer a família dele nem ele a sua. O mesmo se aplica aos amigos. Afinal, não vão ficar juntos por muito tempo. Melhor não dividir nada.

4 - Não se esqueça da segurança -- Casos nunca começam com trocas de exames de Aids e nem comentários detalhados sobre o passado sexual de cada um. A atração é tão forte que quando se dão conta já estão na cama. Portanto, em hipótese alguma a camisinha deve ser ignorada.

Quando um caso vira coisa séria

O mais indicado é seguir as regras (fazer uma lista das diferenças, não apresentá-lo à família ...), mas, às vezes, quando a gente percebe, já está fisgada. Casos sérios são aqueles que começam despreocupadamente, viram relacionamentos à longa distância e logo os dois estão prontos para percorrer centenas de quilômetros para ficarem juntos. Se identificar alguns dos sinais abaixo, as chances são grandes:

* Depois de algum tempo juntos, você manda um cartão dizendo que adorou a última noite. Ele responde no dia seguinte.

* Você descobre que aqueles abismos ideológicos entre os dois são meras diferenças de estilo e gosto. Ou seja, conclui que têm os mesmos valores de vida.

* Ele sugere que passem as férias juntos.

* Antes do beijo de despedida, ele já combinou um novo encontro.

* É simplesmente impossível evitar palavras de carinho e de amor.





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