Ele tirou sua
calcinha, que ficou perdida no meio da rua, num
canto.
Sua mão,
nervosa, procurava alguns reais num montinho amassado que ele havia
enfiado no bolso. Será?
A boca da menina,
que ele mal conhecia, era bem vermelha e fina, mas os gritos eram
fortes, potentes.
Entre suas
mãos que encontravam moedas, guimbas de cigarro, pernas e
bunda, estava uma aliança de ouro legítimo herdada do
pai. Mas onde estava o dinheiro? No bolso da calça do lado
oposto onde ele guarda seu pau. Ele tinha certeza.
Cadê?
_ Na boca,
não!
_ Então vira.
E ele se esqueceu do
dinheiro. E ele repetia.
_ Eu me esqueci do dinheiro! Eu me esqueci do
dinheiro!
E seu dedo. Dedo. E
mais dedo. E mais dedo.
A boca fina da
menina era grossa, sua cabeça pendia, a cabeça do pau
dele pensava lentamente, sonâmbulo. A cabeça dele
olhava também aqueles peitos que também olhavam para
ele através dos rasgos do vestido.
_ Eu me esqueci do dinheiro! Eu me esqueci do
din...
E sua boca tomou o
lugar de seu pau. E sua boca tomou inteiramente o lugar de seu pau.
E sua boca falou baixinho muitas palavras para aquela boca, sem
língua.
Aquela boca
escutava, escutava, ouvia.
Os olhos pretos da
menina olhavam. Viam tudo.
Os pêlos, os
dentes, os pêlos, a língua outra vez e agora da
novo.
Ela se lembrou de um
filme. Ela esqueceu.
Um barulho de moeda
no chão e ele levanta aflito. Pega moeda por moeda. E as
notas?
Ele olha um rasgo em
sua calça. Ele se lembra que rasgou sua calça.
_ Alice! Seu nome é Alice. Alice das ruas. Linda, linda!
Costura minha calça, por favor?
No apartamento dela,
sentado no sofá, ele olha aquela agulha que fura o tecido
duro da calça.
As mãos
nervosas – dele, olhando as mãos pequenas que costuram
um ponto a mais, mais um.
Um cheiro de
café preto que vem da xícara que ele tenta segurar,
nervoso como eu já disse, acalma aquele
ambiente.
Calça pronta,
calça vestida, cinto e tudo. E ele tira o cinto e desabotoa
a braguilha e volta para ela.
E eles conversam, eu
não sei ao certo o quê.
Ela fala mais do que
ele.
Ela volta ao seu
ouvido, agora a sua boca, ao ouvido de novo, ao outro
ouvido.
Agora ela ri, ri
muito. Olha. Ri sem parar.
Ele olha. Ela fala,
fala, fala...
Ele olha novamente.
Ela sorri. Fica séria.
Fica muito
séria.
Ele beija seu
queixo. Ela beija seu queixo.
Ele ri. Ela olha.
Ele olha.
Na rua passando
alguém vê a calcinha no chão. A calcinha se
junta às folhas e corre apressada pela calçada.
Debaixo de um poste de luz fosforescente, agora mais branca que
nunca, pára presa enganchada por um pequeno parafuso. De
longe se pode ver aquela calcinha iluminada naquela noite
tão escura. Um altar talvez.
Da janela, de pé, apoiada no parapeito e no pau duro que a segura pelo meio de suas pernas, ela vê um homem passar distraído ao lado de sua calcinha.
Agora um cachorro e
depois um gato.
E agora ela vê
a mão do homem, a mão e a aliança que seguram
firme na janela.
São duas
mãos e um corpo que ela não
vê.
Ele vê tudo. A
janela, a rua, o homem que passou distraído, o cachorro, a
calcinha.
As costas dela,
parte da bunda, o cabelo todo. O seu pau. O seu pau de
novo.
Ela cega, olha para
frente, para os apartamentos, para o vento que bate frio em seu
rosto.
Ele vê tudo.
Ela cega.
Ele gosta de ver.
Ela gosta de ser vista. Ela se mostra.
As mãos dele
esquecem um prego mal colocado no parapeito.
Ela continua a
mostrar. Ele continua a olhar.
A aliança se
desprende de seu dedo e cai. Só a aliança, ainda no
ar, pôde ver um casal se beijar no primeiro andar. Bate no
chão, rola pela calçada,
pára.
De uma outra janela
do prédio em frente podemos ver os dois. Pouca luz. Alguns
movimentos.
Uma ou duas pessoas?
Uma. Não, acho que duas. Com certeza, duas.
Duas. Um cabelo comprido, outro curto.
Sumiram.
Nunca mais
ninguém os viu.
O vento volta a
soprar frio e empurrou a aliança para debaixo daquele
poste.
Aquele ouro todo
enrolou na brancura daquela calcinha.
A lua iluminou os dois como num altar, e ela disse sim.
Dom 13 Jul 2008 01:31