Alice das ruas!  escrito em sábado 12 julho 2008 06:53

Ele tirou sua calcinha, que ficou perdida no meio da rua, num canto.

Sua mão, nervosa, procurava alguns reais num montinho amassado que ele havia enfiado no bolso. Será?

A boca da menina, que ele mal conhecia, era bem vermelha e fina, mas os gritos eram fortes, potentes.

Entre suas mãos que encontravam moedas, guimbas de cigarro, pernas e bunda, estava uma aliança de ouro legítimo herdada do pai. Mas onde estava o dinheiro? No bolso da calça do lado oposto onde ele guarda seu pau. Ele tinha certeza. Cadê?

_ Na boca, não!
_ Então vira.

E ele se esqueceu do dinheiro. E ele repetia.
_ Eu me esqueci do dinheiro! Eu me esqueci do dinheiro!

E seu dedo. Dedo. E mais dedo. E mais dedo.

A boca fina da menina era grossa, sua cabeça pendia, a cabeça do pau dele pensava lentamente, sonâmbulo. A cabeça dele olhava também aqueles peitos que também olhavam para ele através dos rasgos do vestido.
_  Eu me esqueci do dinheiro! Eu me esqueci do din...

E sua boca tomou o lugar de seu pau. E sua boca tomou inteiramente o lugar de seu pau. E sua boca falou baixinho muitas palavras para aquela boca, sem língua.

Aquela boca escutava, escutava, ouvia.

Os olhos pretos da menina olhavam. Viam tudo.

Os pêlos, os dentes, os pêlos, a língua outra vez e agora da novo.

Ela se lembrou de um filme. Ela esqueceu.

Um barulho de moeda no chão e ele levanta aflito. Pega moeda por moeda. E as notas?

Ele olha um rasgo em sua calça. Ele se lembra que rasgou sua calça.
_ Alice! Seu nome é Alice. Alice das ruas. Linda, linda! Costura minha calça, por favor?

No apartamento dela, sentado no sofá, ele olha aquela agulha que fura o tecido duro da calça.

As mãos nervosas – dele, olhando as mãos pequenas que costuram um ponto a mais, mais um.

Um cheiro de café preto que vem da xícara que ele tenta segurar, nervoso como eu já disse, acalma aquele ambiente.

Calça pronta, calça vestida, cinto e tudo. E ele tira o cinto e desabotoa a braguilha e volta para ela.

E eles conversam, eu não sei ao certo o quê.

Ela fala mais do que ele.

Ela volta ao seu ouvido, agora a sua boca, ao ouvido de novo, ao outro ouvido.

Agora ela ri, ri muito. Olha. Ri sem parar.

Ele olha. Ela fala, fala, fala...

Ele olha novamente. Ela sorri. Fica séria.

Fica muito séria.

Ele beija seu queixo. Ela beija seu queixo.

Ele ri. Ela olha. Ele olha.

Na rua passando alguém vê a calcinha no chão. A calcinha se junta às folhas e corre apressada pela calçada. Debaixo de um poste de luz fosforescente, agora mais branca que nunca, pára presa enganchada por um pequeno parafuso. De longe se pode ver aquela calcinha iluminada naquela noite tão escura. Um altar talvez.

Da janela, de pé, apoiada no parapeito e no pau duro que a segura pelo meio de suas pernas, ela vê um homem passar distraído ao lado de sua calcinha.

Agora um cachorro e depois um gato.

E agora ela vê a mão do homem, a mão e a aliança que seguram firme na janela.

São duas mãos e um corpo que ela não vê.

Ele vê tudo. A janela, a rua, o homem que passou distraído, o cachorro, a calcinha.

As costas dela, parte da bunda, o cabelo todo. O seu pau. O seu pau de novo.

Ela cega, olha para frente, para os apartamentos, para o vento que bate frio em seu rosto.

Ele vê tudo. Ela cega.

Ele gosta de ver. Ela gosta de ser vista. Ela se mostra.

As mãos dele esquecem um prego mal colocado no parapeito.

Ela continua a mostrar. Ele continua a olhar.

A aliança se desprende de seu dedo e cai. Só a aliança, ainda no ar, pôde ver um casal se beijar no primeiro andar. Bate no chão, rola pela calçada, pára.

De uma outra janela do prédio em frente podemos ver os dois. Pouca luz. Alguns movimentos.

Uma ou duas pessoas? Uma. Não, acho que duas. Com certeza, duas.
Duas. Um cabelo comprido, outro curto.

Sumiram.

Nunca mais ninguém os viu.

O vento volta a soprar frio e empurrou a aliança para debaixo daquele poste.

Aquele ouro todo enrolou na brancura daquela calcinha.

A lua iluminou os dois como num altar, e ela disse sim.

 

 



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Todos os comentários desse artigo:
Alice das ruas!

  • mailto Nicéas Romeo Zanchett

    Dom 13 Jul 2008 01:31

    Nossa, quanta criatividade. Parabéns!
    Seu aluno de portugues.
    Romeo